As palavras furtadas
Sei que qualquer rosto é um deus que cria o mundo conforme o seu olhar.
Sei que quando declina a tarde e se torna breve o piar dos pássaros, o teu rosto se descobre no movimento das sombras em que te tornas, mulher desejo. Porque o teu rosto é nómada e vive no deserto de sombra em que se desenha o objecto em que me liquefaço. Porque percebo o sentido de toda a florescência, porque a observo no poisar dos insectos ou no bico dos pássaros. Porque sei que, tal como as palavras, assim permanecem os sonhos à espera das asas, beijando o crepúsculo, retidos à espera de um poeta alado que os leve consigo, transportando o sexo, o orvalho de Maio, a filosofia de todas as pedras e a explosão de infinitos verbos na explosão de inúmeros sonhos. Mas hoje, sei apenas que vejo os teus dedos em declinação, aparando os traços da chuva miudinha. E sei que nos gestos apressados com que recolhes as palavras oblíquas, deslizam dos teus lábios húmidos sombras e palavras numa festa de chuva.
Alexandre Monteio
